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DR. GIMENEZ

Saúde do homem em risco

Por Dr. Gimenez*

Você sabia que os homens cuidam menos da própria saúde? Na pandemia, uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia revelou que mais de 50% dos entrevistados acima de 40 anos deixaram de fazer alguma consulta ou tratamento médico.

Em razão dessa negligência, eles têm morrido muito mais precocemente se comparado às mulheres. Isso é muito sério. Porque quando falamos de câncer de próstata, trata-se do segundo mais prevalente na população masculina, que só perde para o câncer de pulmão em percentual de óbitos.

Mesmo que se ache um “super-homem” (em alusão ao desenho em quadrinhos), é importante se cuidar, fazer exames regularmente e ter um estilo de vida saudável, evitando os excessos. Esse, inclusive, é o apelo principal da campanha Novembro Azul: despertar a consciência dos homens para o autocuidado.

Como médico e deputado estadual, meu trabalho é mais amplo, tenho buscado contribuir com o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) por meio de ações parlamentares, entre elas, apresentei recentemente o Projeto de Lei 978/2021, que institui o programa estadual “ônibus da saúde da mulher e do homem”.

O objetivo é justamente ir até os pacientes em áreas rurais e comunidades distantes, onde a saúde pública não disponibiliza de muitos recursos e estrutura. Sempre fui um defensor da interiorização da medicina e a proposição, se sancionada e regulamentada pelo governo, vai gerar novas oportunidades a quem vive no interior de Mato Grosso.

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Conheço o sistema. Quando se trata de saúde tudo é muito complexo e a dificuldade de montar equipes de atendimento, ainda mais se forem “especializadas”, exige um esforço hercúleo, portanto, compreendo as limitações do Estado e dos municípios. Mas isso não justifica deixar de buscar soluções.

O ônibus da saúde do homem e da mulher deve cumprir uma prerrogativa constitucional, oferecendo acesso a todos, pois a unidade móvel vai se deslocar com as equipes de profissionais aos municípios. Imagine quantas vidas serão salvas, já que o câncer de próstata e de mama têm cura superior a 90% quando descobertos na fase inicial.

Recebo muitas reclamações sobre a dificuldade de agendamento de exames especializados pela Central de Regulação, em alguns casos, quando há suspeita de câncer, pacientes já me relataram que buscaram meios de pagar procedimentos pela rede particular, o que não deveriam acontecer. Concorda?

Fazer campanhas de prevenção como Novembro Azul e Outubro Rosa é extremamente válido, sou um defensor desse engajamento social. Porém, sozinhas as campanhas não são muito eficientes. Porque é primordial certa organização da saúde pública para atender de maneira rápida, eficiente e humanizada os pacientes.

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Um estudo feito pela Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) em 2016 apontou que, no caso do câncer de mama, por exemplo, o custo médio por paciente no estágio 3 estava em R$ 65 mil, comparado com R$ 11,3 mil no estágio 1. Mas quem depende do SUS dificilmente consegue agendar um check-up sem uma “suspeita iminente”, o que inviabiliza o diagnóstico precoce.

Além da questão humana, o prejuízo do câncer reflete na economia. Segundo a Organização Mundial de Saúde, dos 225 mil brasileiros mortos pelo câncer em 2012, mais de 87 mil eram economicamente ativos, entre 15 e 65 anos, o que acarretou perda de produtividade equivalente a R$ 15 bilhões.

O câncer destrói vidas, desestrutura famílias e também afeta o desenvolvimento do país, o que é mais uma justificativa para ampliar e interiorizar a medicina. Caro mesmo é não cuidar daquilo que é o nosso maior bem, a saúde.

*Luís Gimenez é médico e ocupa o cargo de deputado estadual em Mato Grosso.

 

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Opinião

O Filho morreu, e daí?

Por Rui Matos*

 “Tudo o que fomos permanece na despedida. O que juntamos é o que vai na partida”

Quando a voz de besouro do locutor da única rádio da pacata cidadezinha nos cafundós do interior rasgou a madrugada anunciando que já era quase cinco horas da manhã, Zé e Mané já estavam na pracinha do centro. Centro e periferia se confundiam, separados apenas por uma rua calçada com pedras irregulares.

Sentados no banco de cimento que ainda não estava marcado pelo cocô dos pombos, mantinham-se atentos ao que ouviam apesar do chiado que partia de forma impositiva de outro combalido rádio que descansava preguiçosamente sobre o balcão da padaria. Das duas faces da porta de madeira do estabelecimento, apenas uma estava aberta permitindo que a voz rouca com a notícia triste tomasse a rua junto com o filete de luz que clareava a calçada.

Era o anúncio da morte de Filho. Burburinhos já se formavam nas esquinas e os moradores debruçados nas janelas se encarregavam de espalhar a notícia que todos já sabiam.

– Perder o Filho foi triste, né?

– Deixe de ser Mané. O doutorzinho não está nem ai. Lamentar por quê?

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– Você se acha o Zé, né? Insensível. Ele tirou o Filho das ruas e o criou. Não foi assim? – questionou Mané com o coração em pedaços, após também quase encontrar a morte pela contaminação com o Coronavírus.

O sol já queimava o rosto e o lero-lero entre Zé e Mané continuava. A voz mansa deu lugar a gritos que saltavam das bocas sem receio de incomodar as senhoras que se amontoavam logo atrás para ouvir a blá-blá-blá. Foi quando Mané olhou sobre os ombros e tomou para si o controle da falação, fazendo o grupo se dispersar.

– Já viu o doutorzinho levar o Filho pra passear na praça?

– Putz! Não. Nunca vi. Mas acho que a culpa foi da Covid-19, que espantou quase todos das ruas – justificou com os braços abertos, enfiando a cabeça entre os ombros.

– Das poucas vezes que o vi com o Filho, o pobre coitado estava fedendo de tão sujo.

– Ô Mané!!! Foi a Covid que o deixou assim, todo meloso? Ou está se sentindo vítima por morar na periferia?

– Ora, ora! Como se morar no centro fizesse alguma diferença. Talvez tenha sido sim, a Covid. Vi pela televisão que muita gente morreu. Eu mesmo quase parti dessa vida. Logicamente que mudei minha forma de pensar e agir depois de tudo isso. Sobrevivi, né?

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– Então! – completou Zé com semblante de riso.

– Então nos preocupamos cada um por si e nos esquecemos do coletivo. Filho era parte dessa cidade e nos trouxe muitas alegrias. Estou errado?

– Errado não está, mas também não está certo. Afinal, Filho não foi mais importante do que qualquer outro finado durante essa pandemia – esbravejou ao se levantar, batendo a poeira da bunda com as mãos.

– Ao menos, Filho me fazia rir, brincava comigo. Até falava alguma coisa quando escapulia pelo portão, acho! – acreditou Zé, olhando Mané abrir a boca para interrompê-lo.

– Certamente o doutorzinho irá arrumar outro vira-lata. Filho morreu, e dai? Estamos vivos. A vida continua – sentenciou.

– E daí, que tudo o que fomos permanece na despedida. O que juntamos é o que vai na partida. A saudade fica, até mesmo a de um vira-lata. Que Deus o tenha.

 – Bora trabalhar, pois, sol madrugueiro não dura o dia todo – disseram juntos.

 *Rui Matos é jornalista e escritor – Instagram: @rui.matos.escritor

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