STF, políticos e imprensa

A operação Lava Jato inspirou-se na Mãos Limpas que aconteceu na Itália nos anos 1990, e está repetindo aqui o que aconteceu lá: criminosos estrebucham, autoridades judiciais estão enciumadas e parte da imprensa, para se dizer independente, afaga os criminosos.

Parece natural que os investigados, processados ou presos esperneiem para escapar das grades ou dos processos, entretanto é difícil aceitar que o STF, baseado em minudências e firulas processuais se disponha a anular condenações, mesmo as que já transitaram em instâncias superiores, apoiado em tese pra lá de discutível de hierarquizar a ordem de fala dos réus no processo.

Se por um lado parece razoável que o réu delatado fale por último, por outro não custa lembrar que esse direito não estava previsto anteriormente.

Seria lógico incluir na lei para efeitos futuros esse benefício e considerar como legítimos, por que de fato o são, os vereditos de até então, mesmo porque eles não violaram nenhum princípio.

Mas há mais coisas acontecendo: no Brasil, tal qual na Itália, os políticos se insurgem contra a Lava-Jato procurando mudar leis e enquadrar juízes, procuradores e policiais federais limitando-lhes o poder e dando vantagens aos criminosos.

Neste despudor o próprio Bolsonaro com o apoio do Presidente do STF retirou poderes do COAF, para proteger seu filho pego em movimentação financeira atípica. Atípica é forma de dizer porque na verdade trata-se de uma operação recorrente no Brasil inteiro, onde a maioria absoluta dos políticos pratica a chamada “rachadinha’, crime de que é acusado o filho Zero Dois.

Se já causa enorme desconforto aos brasileiros a ofensiva dos ministros e políticos que se defendem de crimes pretéritos e se previne de futuros, há um sofrimento ainda maior diante da adesão de parte da imprensa que apoia essas demandas absurdas.

A quem acompanha a imprensa nacional por certo não terá passado despercebida a posição do maior jornal do País, a Folha de São Paulo, frontalmente contra a Lava-Jato.

Segunda-feira próxima passada, por exemplo, enquanto o terceiro maior jornal do País – O Globo – destacava o volume de dinheiro recuperado pela turma de Curitiba, a Folha colocava na manchete principal que sob Moro a Polícia Federal tinha feito o menor número de operações em cinco anos. Pior, os fatos mostrados na reportagem não confirmavam o título, ficando a impressão de que ocorreu um ataque gratuito.

A operação Mãos Limpas modificou o quadro partidário na Itália, fez vários partidos  desaparecerem e levou alguns políticos e industriais ao suicídio. Aqui o PT sofreu um grande revés, não que seja mais corrupto que os outros partidos, mas detinha o  poder político quando a repressão começou, e, portanto, estava em condições mais favoráveis para pegar o dinheiro da viúva.

Mas pouco a pouco passado o susto ministros e políticos, cada qual com seus próprios interesses, se juntam para detonar a Lava-Jato apoiados por um novo e poderoso inimigo que é a imprensa, ou parte dela.

Aqui ninguém se suicidou. Parece que ninguém se envergonha do roubo, antes preparam o rebote mudando a lei para não serem pegos por ela no futuro.

Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor

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