Facada na educação

Os recentes cortes e contingenciamentos no orçamento das universidades, institutos federais e órgãos de fomento à pesquisa e inovação podem afetar o desenvolvimento tecnológico do país por décadas. Neste texto vou abordar o cenário da educação no mundo, no país e no estado de Mato Grosso.

 

A Universidade Al Quaraouiyine no Marrocos foi criada em 859, e é considerada a primeira do mundo, depois dela muitas outras surgiram, como por exemplo, Universidade de Bolonha na Itália em 1088, Universidade de Oxford no Reino Unido em 1096 e a Universidade de Coimbra em 1290 em Portugal.

 

Nas Américas, a Universidade Nacional Maior de São Marcos, em Lima, foi a primeira a surgir em 1551. Já a Universidad Nacional de Córdoba surge em 1622 e o Harvard College em 1636, bem como diversas outras instituições surgiram no século XVII, XVIII e XIX. Mas e no Brasil? O surgimento dos primeiros cursos de ensino superior nas terras tupiniquins ocorreu no início do século XIX, mas as primeiras universidades vão surgir na segunda década do século XX, sendo elas a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a Universidade Federal do Amazonas (que ainda vivia a influência do ciclo da borracha). A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) surge em 1920. No caso da USP, embora faculdade de Direito tenha sido fundada em 1827, a Universidade de São Paulo, em si, foi criada somente em 1934, enquanto a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) entrou em atividade em 1966. No Mato Grosso, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) surge somente em 1970 e a Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) em 1978.

 

Sim, o Brasil demorou muito para começar a investir em educação. Mas isso é só a ponta do iceberg. Desenvolver um ambiente universitário requer tempo e investimento. Não se nascem doutores em árvores, nem tão pouco se encontra professores e pesquisadores qualificados nas mais diversas áreas da ciência em uma esquina qualquer.

Na grande maioria dos países do mundo, as melhores universidades são públicas. No Brasil não é diferente. As universidades federais e estaduais se destacam na produção de ciência, liderando rankings de publicações de artigos e produção de patentes. Temos várias universidades entre as melhores do mundo.  Algumas instituições, como a Universidade Estadual Paulista (UNESP) e a Universidade de Campinas (UNICAMP), por anos estiveram entre as cem melhores universidades do mundo com menos de 50 anos, sendo que nesta classificação, a UNICAMP chegou a ser a 11ª melhor do mundo, segundo o Instituto QS Quacquareill Symonds. Sim, na hora de analisarmos a classificação de uma universidade em um ranking, precisamos também considerar o tempo de funcionamento da instituição.

 

O Brasil aumentou muito sua contribuição científica nas últimas décadas, e hoje é o 14º país que mais produz artigos científicos no mundo. Há quem questione essa produção, dizendo que o fator de impacto é pequeno, mas precisamos ponderar sobre isso. O mundo científico fala inglês, o Brasil não, e esse é um dos fatores que mais influência o número de citações da pesquisa nacional. Bom, o leitor deve estar pensando, então é só os pesquisadores brasileiros escreverem em inglês e tudo está resolvido. Mas quando escrevemos um artigo em inglês, a utilidade do artigo para gestores locais e professores se reduz drasticamente, já que ainda é reduzido o número de pessoas no Brasil que dominam outro idioma. Em outros países esse problema é menor, seja devido a características históricas ou educacionais ou por serem países com inglês como língua nativa.

 

Há quem diga também que a produção de artigos e ciência básica não serve para nada. Mas desafio qualquer uma dessas pessoas a mostrar um item que usamos no dia-a-dia que não utiliza no seu desenvolvimento pesquisa científica de base. Tudo que é usado na sociedade moderna tem contribuição de artigos e teses feitos por pesquisadores. Um belo exemplo, foram os estudos de Marie Skłodowska Curie, que conduziu conhecimentos pioneiros no ramo da radioatividade, que depois foi aplicado para uma infinidade de coisas. Mas com certeza quando ela iniciou os estudos não imaginava o quanto seus trabalhos conseguiria mudar e contribuir para diversos campos na sociedade.

 

É inegável na história da humanidade a importância das universidades e centros de pesquisa para o desenvolvimento da sociedade e de cada uma das nações. Com certeza Mato Grosso seria muito diferente caso não tivessem sido criadas as universidades na década de 70, seria mais pobre e menos desenvolvido. Isso porque o conhecimento transforma uma região, aumenta a eficiência local e cria oportunidades. Além de formar pessoas, as universidades são um centro cultural, esportivo e científico e com inúmeras atividades de extensão e de pesquisa.

 

A pesquisa nas universidades é produzida principalmente nos programas de mestrado e doutorado, mas para se criar um programa destes, é preciso um número mínimo de doutores com condições adequadas. Na UFMT os primeiros cursos de mestrado surgiram apenas na década de 90, mas somente no século XXI a pós-graduação foi massificada, sendo que hoje a instituição possui dezenas de cursos de mestrado e doutorado.

 

Conforme a Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) em uma escala que vai de 1 a 7, 5 dos programas da UFMT receberam nota 5, 11 com nota 4, 21 com nota 3 e um com nota 2. Outras instituições também possuem programas de pós-graduação em Mato Grosso. A UNEMAT possui 4 programas nota 3 e 7 programas nota 4, a UNIC possui apenas 3 programas nota 3 e 3 programas nota 4, o IFMT, apesar de ser direcionado para a formação de técnicos e tecnólogos, também possui um programa de mestrado nota 3.

 

São os estudantes de pós-graduação e seus orientadores que movem a máquina da ciência no país. Nesta semana o Bolsonaro deu mais uma facada na ciência nacional, cortou milhares de bolsas de mestrados e doutorado. Esses estudantes possuem dedicação exclusiva, em geral, para realização de suas pesquisas. E para isso recebem 1500 reais no caso de mestrado e 2200 nos programas de doutorado. As pesquisas desenvolvidas por essas pessoas resultam em mudanças profundas na sociedade, criam patentes, resolvem problemas sociais, dentre outras coisas.

 

Em algumas regiões do país as universidades já possuem programas de mestrado e doutorado há muitas décadas. Em outras regiões, durante anos foi complicado até mesmo conseguir professores para ministras as aulas na graduação. Quem vivenciou o início da história da UFMT conta que era comum recém-formados se tornarem professores da instituição. Até hoje quando se abre novos cursos, dependendo da área nem sequer um concorrente aparece para disputar a vaga no concurso. Isso porque existe em algumas áreas do conhecimento poucos mestres e doutores, que, em geral, dificilmente saem dos grandes centros urbanos e científicos do país.

 

Como resultado deste cenário, algumas universidades no Brasil demoram anos para possuírem doutores suficientes para criar programas de mestrado e doutorado. Dentro das avaliações desenvolvidas pela CAPES, as diferenças entre as regiões do país são claras. Na região amazônica não existe nenhum programa com a nota 7 (nota máxima), isso porque a pós-graduação nestas regiões ainda é muito recente. Para se ter uma ideia, enquanto no estado de São Paulo existe 894 programas de pós-graduação, Mato Grosso conta com apenas 57 programas. Em outros estados quase inexiste a formação de mestres e doutores, como por exemplo no Amapá que possui apenas 4 programas de pós-graduação.

 

A criação de laboratórios de ponta e de centros de pesquisas estão ligados diretamente ao desenvolvimento da pós-graduação nas instituições. São os grupos de pesquisa das universidades que conseguem capitar recursos para criar laboratórios de excelência. O crescimento dos programas de pós-graduação na última década na UFMT mostra o comprometimento de pesquisadores para construção de uma universidade de ponta, mas os cortes realizados pelo governo federal na ciência e tecnologia e na educação, podem jogar décadas de trabalho pelo ralo. Imagine o prejuízo que seria perder uma pesquisa devido à falta de luz? Ou o número de reagentes e insumos que se perderiam devido ao não funcionamento dos equipamentos? Também não podemos admitir o corte nas bolsas de pesquisa de mestrado e doutorado que são fundamentais para manutenção dos programas de pós-graduação. A Universidade Brasileira precisa de incentivo e investimento, precisamos de políticas sérias de ensino e de ciência e tecnologia. O Brasil começou tarde a construir o conhecimento nacional e, por isso, não podemos parar ou perder tempo. Precisamos continuar a caminhada para construir centros de excelências em todos os estados. Diga não aos cortes!

 

CAIUBI KUHN é geólogo, especialista em Gestão Pública, mestre em Geociências pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e docente da Faculdade de Engenharia UFMT-VG.

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